SERRA NEGRA ( SP) – A história da cafeicultura brasileira costuma ser contada em grandes extensões de terra mecanizadas, mas é no detalhe e no relevo acidentado da Serra da Mantiqueira que reside a essência do café especial. Roberto Broto Marchi, produtor da quarta geração da familia Marchi e proprietário do Sítio São Geraldo, em Serra Negra (SP), é o rosto de uma transição que define o novo momento do setor: a troca da quantidade pela qualidade extrema.
A trajetória da família começou como a de tantos outros imigrantes italianos que desembarcaram na região de Amparo para trabalhar como colonos. Com o tempo e o acúmulo de economias, os antepassados de Roberto adquiriram as primeiras terras em Serra Negra. Hoje, Roberto e sua esposa dão continuidade a esse legado, enfrentando um desafio geográfico que se tornou seu maior diferencial competitivo.
O Desafio da Montanha e o Custo do Cuidado
Diferente das grandes planícies, o Sítio São Geraldo está incrustado na montanha. “Não tem como mecanizar, trabalhar com trator dentro da lavoura. É muito manual”, explica Roberto.
Esse fator eleva drasticamente o custo de produção, tornando inviável a competição com cafés do tipo commodity, cujos preços oscilam conforme o mercado global e são frequentemente afetados por mudanças climáticas que tornam o cultivo cada vez mais complexo.
Em 2010, o desânimo com as baixas margens de lucro quase interrompeu a tradição familiar. A solução veio entre 2012 e 2014, quando o casal decidiu mergulhar no universo dos cafés especiais. Eles descobriram que a mesma plantação com pés de Catuaí que chegam a 57 anos, poderia entregar um produto de alto valor agregado se o manejo fosse transformado.
A Ciência da Doçura: Colheita e Terroir
A migração para o café especial exigiu uma mudança de mentalidade. Roberto passou a tratar o café como uma fruta delicada. “Se eu colher uma ameixa verde, ela vai amarrar a minha boca. O café é igual”, pontua. O segredo do Café Nonno Marchi, marca da família, está na colheita seletiva do “fruto cereja” (bem maduro), onde a concentração de açúcar é máxima.
Durante a secagem no terreiro, esse açúcar da polpa é “empurrado” para dentro do grão, resultando em notas sensoriais naturais de chocolate e caramelo. Roberto compara o café ao vinho: a altitude, o clima e o terroir ditam o sabor final, e cada safra é única.

Variedades e o “Mito” da Torra Escura
Atualmente, o Sítio São Geraldo cultiva sete variedades de café Arábica, incluindo Mundo Novo, Catuaí, Tupi e Arara. Cada uma delas oferece um perfil sensorial distinto, que é preservado através de uma torra média.
Roberto alerta para uma prática comum na indústria de cafés tradicionais e extrafortes: o uso da torra excessiva para esconder defeitos. “A torra conserta tudo. Grãos ardidos, verdes ou que sofreram fermentação indesejada no chão são queimados até virarem ‘carvão’ para mascarar o gosto ruim”, revela o produtor. Ele ressalta que o selo “100% Arábica” nem sempre é garantia de qualidade superior, pois pode conter grãos defeituosos ou impurezas da própria casca se o processo não for rigoroso.
Para a família Marchi, o café especial não é apenas um negócio, mas a preservação de uma história que resiste ao tempo e às dificuldades do clima, entregando na xícara a dedicação de quatro gerações de apaixonados pela terra.
Serviço
Nonno Marchi Café
Estrada Municipal José Amatis Franchi Bairro da Serra, Serra Negra – SP – CEP: 13930-000
Horário de funcionamento:
De Quarta à Domingo das 9h00 ás 17h00
Whatsapp (19) 99717-2143
E-mail: contato@cafenonnomarchi.com.br
Instagram:@cafe.nonnomarchi






