IA no setor público acelera serviços, reduz burocracia e desafia domínio das big techs

Em seminário do LIDE, autoridades e líderes do setor privado revelam a criação de IA 100% nacional. (Crédito Evandro MacedoLIDE)

A adoção de Inteligência Artificial (IA) no setor público brasileiro entrou em uma nova fase, deixando de ser experimental para se consolidar como ferramenta estratégica na gestão, na prestação de serviços e na própria soberania digital do país. O tema foi o centro dos debates no Seminário LIDE – Inteligência Artificial, realizado na manhã da última quarta-feira (25)  na Casa Lide, em São Paulo. O encontro reuniu autoridades públicas e lideranças do setor privado.

O encontro evidenciou um diagnóstico comum: sem domínio tecnológico, infraestrutura própria e integração entre governo e iniciativa privada, a IA corre o risco de apenas replicar ineficiências já existentes no Estado.

Um dos principais exemplos apresentados veio do Piauí. O governador Rafael Fonteles anunciou o desenvolvimento do “Soberano 1”, um modelo de linguagem treinado com 500 bilhões de tokens em português e com lançamento comercial previsto ainda neste ano, em parceria com o Serpro. A iniciativa já apresenta resultados práticos. Segundo ele, o uso de IA no cruzamento de dados e no rastreamento de celulares roubados contribuiu para reduzir furtos em até 78% no estado.

A discussão sobre soberania digital também ganhou força no âmbito federal. Carlos Rodrigo Fonseca, head de IA do Serpro, destacou que a estatal já realiza cerca de 50 milhões de validações faciais por mês e trabalha na construção de uma “nuvem soberana”, que mantém os dados dos brasileiros dentro do território nacional. “A estratégia envolve diversificação de infraestrutura para evitar dependência geopolítica”, indicou.

Infraestrutura e disputa global por chips

O avanço da IA, no entanto, esbarra em um gargalo crítico: a escassez global de capacidade computacional. Leonardo Santos, fundador da Semantix, afirmou que o processamento medido em tokens se tornou uma nova moeda no mercado internacional. Segundo ele, há filas de até dois anos para acesso aos chips mais avançados da Nvidia.

Diante desse cenário, Santos defendeu que o Brasil não deve competir diretamente com as grandes plataformas globais, mas buscar uma alternativa baseada em modelos menores e especializados. “A capilaridade do SUS é gigante. Me fale uma base de dados no mundo com esse acesso para criarmos modelos especializados em saúde que impactem o cidadão?”, questionou.

Essa visão foi reforçada por Roberto Florentino, da X-VIA, ao apontar que o país tem potencial de “saltar etapas” tecnológicas. Ele citou a digitalização de serviços via aplicativos e a exportação de soluções brasileiras de interoperabilidade de dados como evidência dessa capacidade.

Regulação em construção

No campo regulatório, o desafio é equilibrar inovação e segurança jurídica. O deputado federal Aguinaldo Ribeiro, relator do Projeto de Lei da IA, foi direto ao afirmar que “soberania não existe em discurso, existe com orçamento”. Ele defende uma legislação flexível, baseada na classificação de riscos, e revelou articulações para viabilizar investimentos em data centers no país.

Para o professor Bruno Bioni, o Brasil deve evitar tanto o excesso de regulação europeu quanto a ausência de regras dos Estados Unidos. “Regras claras não freiam, mas trazem resiliência à inovação”, afirmou, citando o Pix como exemplo de sucesso regulatório.

Impacto nos estados e municípios

Na ponta da administração pública, a IA já começa a transformar serviços, mas ainda enfrenta barreiras culturais e estruturais. A secretária da Fazenda de Alagoas, Renata dos Santos, alertou para o uso inadequado da tecnologia: “O Estado não pode usar a tecnologia apenas para digitalizar ineficiências”.

Experiências práticas mostram ganhos de eficiência. Em Mato Grosso, a integração de bases permitiu a criação do MT Cidadão, que reúne serviços públicos em uma única plataforma e utiliza IA para ações direcionadas, como campanhas de vacinação.

Já nos municípios, o cenário é mais desafiador. O prefeito de Maringá, Silvio Barros, destacou avanços como o envio de guias de IPTU por aplicativos de mensagem, mas alertou para a falta de recursos. “As prefeituras não têm caixa para montar estruturas robustas de cibersegurança”, afirmou.

Produtividade e entraves estruturais

O debate também expôs gargalos históricos. O deputado Ricardo Barros criticou a resistência de estruturas públicas à adoção de soluções mais ágeis e apontou inconsistências em bases de dados nacionais. Já Leonardo Santos chamou atenção para a baixa produtividade: enquanto o fechamento contábil de empresas no Brasil pode levar até 2.000 horas, nos Estados Unidos o processo é concluído em cerca de 12 horas.

Mudança de mentalidade

Encerrando o seminário, o especialista Charles Bezerra trouxe uma reflexão sobre o impacto da IA além da tecnologia. “A gente está dando passos no ar”, disse, comparando o momento atual à falta de compreensão sobre a profundidade da transformação em curso.

Para ele, o maior desafio não é tecnológico, mas humano. “Nós estamos na fase das carroças motorizadas, sem noção do impacto disso em nossas vidas.” A saída, segundo Bezerra, passa por uma mudança de mentalidade, combinando inteligência técnica com valores, intuição e responsabilidade.

O consenso entre os participantes foi claro: a IA tem potencial para reduzir burocracias, aumentar a eficiência e melhorar serviços públicos. No entanto, sem investimento em infraestrutura, integração de dados e transformação cultural, o risco é apenas modernizar problemas antigos.

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