Eletromobilidade já é realidade e redefine política pública, indústria e comportamento do consumidor, afirma LIDE em seminário em São Paulo

Seminário LIDE Energia Eletromobilidade - Crédito Dalton Assis - AC News

A transição da mobilidade baseada em combustíveis fósseis para a eletrificação deixou de ser tendência e passou a ocupar o centro das decisões econômicas, industriais e de política pública no Brasil. Essa foi a principal mensagem do Seminário LIDE Energia / Eletromobilidade, realizado nesta terça-feira (24), na Casa LIDE, em São Paulo, reunindo lideranças empresariais e autoridades para discutir “O Novo Comportamento do Consumidor”.

O encontro contou com a participação de Jean Paul Prates, head de Conteúdo do LIDE; Luiz Furlan, membro do conselho do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI); João Doria Neto, CEO global do LIDE; João Doria, fundador do LIDE; Domênico Barreto Granata, presidente da LOGA; Iêda Maria, diretora comercial da Eletra; Celso Caldeira, secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte; Ricardo Guggisberg, presidente do IBMS; Miguel Pricinote, secretário executivo de Políticas para Cidade e Transporte de Goiás; e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.

“A era do petróleo acabou para a mobilidade”

Na abertura, Jean Paul Prates foi categórico ao afirmar que a mobilidade elétrica já substitui, de forma irreversível, o protagonismo do petróleo no transporte. “A era do petróleo acabou para a mobilidade. Não está acabando, ela acabou”, declarou.

Com trajetória histórica no setor de óleo e gás, Prates defendeu que o mundo vive a consolidação da eletrificação como base dominante da transição energética. Segundo ele, a indústria, a tecnologia e as soluções para baterias, rejeitos e mineração já estão disponíveis, e a eletrificação total das frotas globais pode ocorrer em menos de 50 anos.

Para o executivo, o debate precisa sair do campo técnico e chegar ao cotidiano: “Como isso vai transformar minha vida? É o futuro? Não. É o presente”.

Impacto econômico e oportunidade industrial

João Doria Neto trouxe a perspectiva internacional após retornar de Xangai. Segundo ele, a eletromobilidade já responde por 33% do crescimento do PIB chinês. “Não é só uma mudança de motor, é uma transformação econômica”, afirmou.

No Brasil, ele apontou que a nacionalização da cadeia pode injetar mais de R$ 1 trilhão na economia nos próximos anos. Com matriz energética limpa, reservas de minerais críticos e capacidade industrial instalada, o país estaria em um “ponto de inflexão” para se tornar protagonista no hemisfério sul.

Luiz Furlan reforçou a importância da cooperação internacional, especialmente com o Japão, para o processamento de minerais estratégicos e a produção de baterias no Brasil. Ele destacou ainda a queda no custo de baterias estacionárias e o avanço da geração distribuída com energia solar como vetores complementares à mobilidade elétrica.

Resíduos, biometano e energia: a nova cadeia da mobilidade

O presidente da LOGA, Domênico Barreto Granata, apresentou a integração entre gestão de resíduos sólidos e transição energética. A capital paulista gera cerca de 12 mil toneladas de resíduos por dia, com 45% a 50% de matéria orgânica.

Segundo ele, por meio dos Ecoparques e de Unidades de Recuperação Energética (URE), o resíduo passa a ser fonte de energia elétrica e biometano. O biogás extraído da fração orgânica é convertido em combustível para abastecer caminhões da própria frota de coleta.

A meta, segundo Granata, é substituir até 900 mil litros de diesel por mês por combustível limpo, além de gerar cerca de 600 MW, com potencial de abastecer uma cidade de 300 mil habitantes.

Mudança de comportamento e competitividade industrial

Iêda Maria, da Eletra, destacou que a mobilidade elétrica não representa apenas troca de combustível, mas mudança cultural. “O cidadão percebe o conforto, o silêncio, a ausência de trancos. Ele espera o ônibus elétrico”, afirmou.

Ela ressaltou que o Brasil possui a terceira maior frota de ônibus urbanos do mundo e defendeu a retomada do protagonismo nacional na exportação de ônibus elétricos na América Latina. A empresa aposta na produção voltada à realidade brasileira, vias irregulares, rampas acentuadas e alta lotação como diferencial competitivo.

A executiva também observou um movimento de qualificação profissional nas garagens e oficinas, com trabalhadores buscando formação técnica e engenharia elétrica diante da nova tecnologia.

A dimensão da operação em São Paulo

O secretário Celso Caldeira apresentou números da maior operação de transporte público da América Latina. São 13.419 ônibus na capital, 1,9 bilhão de passageiros transportados em 2025 e 163 mil viagens programadas por dia útil.

Atualmente, 100% da frota é monitorada, 96% possui ar-condicionado e 100% é acessível. Segundo ele, o avanço da eletromobilidade é “absolutamente impressionante”, com expansão consistente das linhas eletrificadas entre 2020 e 2025.

Ricardo Guggisberg acrescentou a dimensão da micromobilidade, que ganhou força durante a pandemia, com expansão de bicicletas elétricas, patinetes e integração com o transporte público. Em 2025, mais de 80 mil e-bikes foram vendidas na cidade de São Paulo, segundo dados citados da Aliança Bike.

Estrutura financeira e política pública

Encerrando o seminário, o prefeito Ricardo Nunes enfatizou que a descarbonização “não é bala de prata”, mas exige estrutura financeira sólida. Desde 2022, está proibida a aquisição de novos ônibus a diesel na capital.

Segundo ele, um ônibus elétrico custa cerca de R$ 2,8 milhões, ante R$ 800 mil de um modelo a diesel, mas a economia operacional e ambiental compensa o investimento. Cada ônibus a diesel consome 35 mil litros de combustível por ano e emite 87 toneladas de CO₂. Já o elétrico equivale à preservação de 6.400 árvores por ano.

A prefeitura estruturou R$ 6,7 bilhões em operações de crédito junto a instituições como BNDES, Banco do Brasil, Caixa, BID, BIRD e Banco da China para viabilizar a substituição da frota. Hoje, mais de 1.100 ônibus elétricos já circulam na capital, com outros 500 em fase de entrega.

Ao fim do encontro, representantes dos setores público e privado foram unânimes: a eletromobilidade deixou de ocupar o campo das projeções e passou a integrar a agenda estratégica do país. Mais do que inovação tecnológica, consolida-se como força estruturante da economia, da transição ambiental e da reorganização urbana, com efeitos diretos sobre cadeias produtivas, políticas públicas e decisões de consumo.

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