Especialistas dos principais institutos de pesquisa do país avaliaram que a eleição presidencial de 2026 segue em aberto, apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparecer em posição de vantagem neste momento. A análise foi apresentada durante o Almoço Empresarial LIDE, realizado nesta segunda-feira (27), em São Paulo, que reuniu representantes da Quaest, Datafolha, AtlasIntel, Paraná Pesquisas e o cientista político Antonio Lavareda.
Embora cada instituto utilize metodologias próprias, o diagnóstico predominante foi de que o cenário eleitoral continua marcado pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, mas com espaço para mudanças ao longo da campanha, impulsionadas pelo comportamento dos eleitores independentes, pelos índices de rejeição e pelos acontecimentos dos próximos meses.
Lula amplia vantagem, mas disputa permanece indefinida
Em participação por vídeo, o CEO da Quaest, Felipe Nunes, apresentou um modelo segundo o qual a probabilidade de reeleição de Lula passou de aproximadamente 38% para quase 60%, acompanhando a melhora da aprovação do governo e da percepção da economia. Segundo ele, os fundamentos favorecem o presidente, embora a campanha ainda reserve um alto grau de imprevisibilidade.
“Hoje, os modelos clássicos da ciência política apontam que Lula começa com uma condição de favoritismo maior do que os seus concorrentes. Isso está demonstrado. Mas essa parece ser uma eleição muito difícil de cravar. Os fundamentos favorecem o presidente, a agenda de preocupação favorece a oposição. Os independentes começam a se mover, mas ainda não estão completamente definidos.”
Nunes observou que lulismo e antipetismo concentram cerca de 35% do eleitorado cada, o que transfere aos eleitores independentes a responsabilidade por definir o resultado da eleição.

AtlasIntel aponta liderança consistente, apesar do desgaste da base governista
O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, chamou atenção para um cenário considerado contraditório. Embora pesquisas indiquem perda de apoio de Lula entre jovens, eleitores da classe C e parte do eleitorado nordestino, o presidente segue liderando os levantamentos realizados pelo instituto.
Segundo Roman, Lula aparece com vantagem de aproximadamente 10 pontos percentuais no primeiro turno e de sete pontos no segundo turno. Em simulações anteriores, Flávio Bolsonaro chegou a abrir vantagem de até três pontos, mas perdeu espaço durante a pré-campanha.
“O que as pesquisas revelam neste instante, no entanto, é que Lula parte como favorito tanto no primeiro quanto no segundo turno.”
Para o pesquisador, fatores estruturais como avaliação do governo e percepção da economia continuam influenciando o eleitor, mas não explicam sozinhos o comportamento do eleitorado.
“Geralmente, quando você tem a estrutura apontando de uma forma totalmente diferente dos fatores conjunturais, isso é uma receita de volatilidade eleitoral.”

Rejeição elevada mantém cenário competitivo
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, apresentou resultados que reforçam o equilíbrio da disputa. Segundo o instituto, Lula mantém cerca de 30% das intenções de voto desde o segundo semestre do ano passado, mas enfrenta um índice de 46% de rejeição, enquanto Flávio Bolsonaro registra 48%.
Para Chong, o comportamento do eleitorado repete parte da dinâmica observada em 2022, quando muitos brasileiros votaram mais para impedir a vitória do adversário do que propriamente pela identificação com um candidato.
“Acaba se tratando de uma eleição de rejeição. Muitos eleitores votam em Lula não por considerarem as suas propostas as melhores, mas para combater Bolsonaro. E muitos votam em Flávio também para combater a liderança de Lula.”
Outro dado destacado pela pesquisadora foi o aumento da parcela de eleitores que ainda não manifestam preferência espontânea por nenhum candidato. Em igual período da eleição de 2022, esse grupo representava 25% do eleitorado. Atualmente, chega a 37%, indicando menor mobilização política.

Eleitores sem alinhamento podem definir a eleição
Entre os eleitores sem identificação com lulismo ou bolsonarismo, o Datafolha identificou o grupo considerado mais estratégico da disputa. Nesse segmento, 53% ainda não conseguem citar espontaneamente um candidato.
Quando estimulados, Lula aparece com 25% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registra 15%. Outros candidatos, como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos, somam 21%, enquanto 25% permanecem indecisos.
Em um eventual segundo turno, Lula reúne 40% das preferências desse eleitorado, contra 31% de Flávio Bolsonaro, enquanto 26% afirmam que votariam em branco ou anulariam o voto.
“Os não alinhados são aqueles que realmente podem decidir a eleição.” destaca Luciana Chong,
Pesquisas retratam o momento, afirmam especialistas
Ao longo do encontro, os participantes também reforçaram que levantamentos eleitorais representam um retrato do momento e não antecipam o resultado das urnas.
O cientista político Antonio Lavareda lembrou que, em cinco das nove eleições presidenciais realizadas desde a redemocratização, houve mudanças importantes na posição dos candidatos entre julho e o dia da votação.
“Pesquisas não são bola de cristal, não servem para fazer projeção absoluta sobre o futuro, mas são extremamente importantes, sobretudo para a sociedade acompanhar a correlação de forças, os fatores envolvidos, as principais preocupações da população e a distribuição do apoio nos segmentos demográficos e nas regiões do país.”

Na mesma linha, o presidente do Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, afirmou que fatos políticos, debates, entrevistas e denúncias ainda poderão alterar significativamente o cenário eleitoral.
“As pesquisas são a fotografia desse momento. Pela realidade de hoje, eu não teria medo de afirmar para vocês que nós teremos uma eleição de dois turnos.”
Segundo Hidalgo, temas como corrupção, segurança pública, saúde e economia deverão dominar o debate eleitoral, enquanto São Paulo pode assumir papel decisivo na definição do próximo presidente da República.

A pouco mais de dois meses do primeiro turno, o consenso entre os especialistas é que Lula inicia a campanha em posição mais favorável, mas longe de uma vitória consolidada. A elevada rejeição aos dois principais candidatos, a baixa mobilização do eleitorado e o comportamento dos brasileiros sem alinhamento político mantêm a disputa aberta e sujeita a mudanças ao longo da campanha até a votação em outubro.
