Daniella Marques, Felipe Salto, Caio Megale, Henrique Meirelles, Adolfo Sachsida e Marcos Troyjo apontaram o desequilíbrio das contas públicas como um dos principais entraves à economia brasileira durante seminário do LIDE, em São Paulo
A necessidade de reorganizar as contas públicas brasileiras e reduzir o peso dos juros sobre o orçamento dominou os debates do Seminário Empresarial LIDE Cenários do Brasil, realizado nesta terça-feira (1º), na Casa LIDE, em São Paulo. Entre os participantes, a avaliação predominante foi de que o desequilíbrio fiscal limita a queda dos juros, reduz a capacidade de crescimento e dificulta o aproveitamento das oportunidades abertas pelo cenário internacional.
Daniella Marques, economista e ex-presidente da Caixa entre 2022 e 2023, defendeu que o ajuste das contas públicas seja tratado também como uma medida de caráter social. Segundo ela, retirar ao menos R$ 500 bilhões das despesas com juros deveria ser uma prioridade do país.
“Não há nada mais social nesse momento do que botar as contas no lugar e tirar pelo menos R$ 500 bilhões de despesa de juros da conta”, afirmou.

Para Daniella, a reorganização fiscal precisa avançar paralelamente à transformação digital do Estado. Ela defendeu a integração dos serviços públicos a partir das necessidades concretas da população, incluindo atendimento relacionado à renegociação de dívidas, capacitação profissional, empreendedorismo e formalização de negócios.
A economista citou a expansão do Gov.br, que, segundo ela, já reúne 173 milhões de brasileiros, além da digitalização de mais de 4 mil serviços públicos. A proposta apresentada é integrar estruturas atualmente distribuídas por órgãos como INSS, Receita Federal, FAT, Sine e CadÚnico. Nesse contexto, Daniella também defendeu uma ampliação do papel da Caixa na orientação financeira e no apoio à inclusão produtiva, para além da operação de pagamentos de benefícios.
“O governo precisa estar organizado pela vida real das pessoas, pelo empreendedorismo, que é a maior ferramenta de transformação social que uma nação pode ter”, afirmou.
Pressão das despesas sobre o resultado fiscal
O economista-chefe da Warren e ex-secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, Felipe Salto, apresentou durante o seminário uma lista de medidas que, em sua avaliação, poderiam contribuir para a reorganização das contas públicas.
Segundo Salto, o déficit público corresponde a 9% do PIB, sendo que entre 8,5% e 8,6% estão relacionados ao pagamento de juros. A dívida pública, de acordo com os números apresentados por ele, chegou a 82,5% do PIB, equivalente a R$ 10,95 trilhões pelo conceito do Banco Central e próximo de R$ 13 trilhões pelo critério do Fundo Monetário Internacional.
Entre as propostas apresentadas estão a revisão de contratos, o combate aos supersalários, a redução das emendas parlamentares, mudanças no processo orçamentário, revisão de indexações e das vinculações automáticas de saúde e educação, além da redução de subsídios, subvenções e gastos tributários. Salto chamou atenção ainda para o grau de rigidez do orçamento federal. Segundo ele, apenas 4,7% das despesas da União são discricionárias. Dos R$ 227 bilhões dessa parcela, R$ 52 bilhões correspondem a emendas parlamentares.
Na avaliação do economista, o cumprimento do teto remuneratório de R$ 46 mil em tribunais e ministérios públicos poderia representar uma economia de aproximadamente R$ 10 bilhões por ano.
“A maior falácia é dizer que não há onde cortar porque o orçamento é muito rígido”, afirmou. “O que não dá é para continuar com o piloto automático no orçamento público.”

XP prevê ajuste na economia em 2027
O cenário para 2027 também esteve no centro das discussões. Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos e head do LIDE Economia, avaliou que o país deverá passar por um período de ajuste depois de anos de expansão apoiada pelo consumo, crédito, transferências de renda e política fiscal. Para Megale, os estímulos adotados em 2026 já apresentam menor capacidade de impulsionar a atividade econômica, enquanto a dívida pública avançou quatro pontos percentuais ao longo do ano. O economista destacou ainda o contraste entre o crescimento da arrecadação e a ausência de superávit.
“Acho que vamos para um processo de freio de arrumação no ano que vem, que tende a ser saudável para diminuir as distorções, permitir ao Banco Central cortar juros e permitir que a economia se reequilibre, desalavanque e volte a crescer de forma sustentável”, afirmou.
Megale comparou a situação fiscal brasileira à de uma empresa que aumenta o faturamento, mas permanece sem resultado positivo.
“O Brasil bate recorde de arrecadação e não consegue gerar superávit. É como uma empresa com recorde de faturamento, mas com EBITDA negativo.”

A necessidade de uma política fiscal mais restritiva também foi defendida por Henrique Meirelles, co-chairman do LIDE, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central. Para ele, a combinação entre uma política fiscal expansionista e uma política monetária contracionista mantém o Banco Central sob pressão para preservar juros elevados, enquanto a inflação permanece acima da meta.
“A única saída agora, de fato, é o controle fiscal”, disse.
Meirelles ponderou, porém, que o ajuste das contas públicas não resolve sozinho os problemas estruturais da economia brasileira. Para ele, o desafio de médio e longo prazo está relacionado à produtividade. Segundo o economista, a produtividade brasileira corresponde atualmente a cerca de um quarto da registrada nos Estados Unidos, enquanto na década de 1970 essa relação era próxima da metade. Educação, ensino técnico e treinamento profissional foram apontados por Meirelles como áreas necessárias para reverter essa trajetória.

Proposta vincula gastos à dívida pública
Uma das propostas mais específicas apresentadas no encontro partiu de Adolfo Sachsida, doutor em Economia, CEO da Sachsida Consultoria e ex-ministro de Minas e Energia. Ele defendeu a criação de um limite para a relação entre a dívida pública e o PIB que funcionaria como gatilho para o controle das despesas.
“Vai ter um teto na relação dívida-PIB. Passou disso aí, dispara o teto de gastos”, afirmou.
Pelo modelo apresentado, despesas extraordinárias poderiam ser autorizadas em situações emergenciais, mas seus efeitos sobre a trajetória da dívida precisariam ser considerados. Sachsida também defendeu que o reequilíbrio fiscal ocorra pela redução de gastos, sem aumento da carga tributária. O economista afirmou ainda que a dívida pública avançou dez pontos percentuais do PIB em menos de quatro anos. Durante o seminário, também declarou que um eventual governo liderado pelo senador Flávio Bolsonaro pretende solucionar o desequilíbrio fiscal em um ano e meio.
“Anotem aí: um ano e meio nós vamos resolver o lado fiscal da economia. Tem consenso para isso”, declarou.
Sachsida disse ainda que trabalha desde novembro com cerca de 100 pessoas, divididas em 26 grupos, na elaboração de propostas para um eventual próximo governo. Segundo ele, o trabalho já identificou mil atos governamentais e legislativos que ampliam a burocracia. A agenda citada inclui digitalização de serviços públicos, desregulamentação, desburocratização e criação de novos marcos legais.

Ambiente externo pode favorecer o Brasil
Apesar das críticas à situação fiscal doméstica, Marcos Troyjo, economista, co-chairman do LIDE e ex-presidente do Banco do BRICS, avaliou que o ambiente internacional abre oportunidades relevantes para o Brasil. A demanda global por segurança alimentar, diversidade energética, minerais críticos e terras raras coloca o país em posição estratégica, segundo Troyjo. O problema, na avaliação dele, está na capacidade brasileira de transformar essas vantagens em crescimento diante das restrições internas.
“Estruturalmente, a economia global é mais desafiadora para a grande maioria dos países, mas, curiosamente, é favorável ao Brasil”, afirmou.

Troyjo classificou o momento como uma transição para uma “economia ESG 2.0”, em que fatores econômicos passam a estar cada vez mais associados a segurança e geopolítica. Para o economista, entretanto, a combinação entre dívida elevada, juros altos e custo do serviço da dívida representa um risco para que o Brasil consiga aproveitar esse ambiente externo.
“O país que tem a combinação mais perigosa entre a proporção da dívida em relação ao Produto Interno Bruto e o custo dessa dívida é o Brasil”, finalizou o executivo.






