Universidade Zumbi dos Palmares cria Câmara para mediar casos de racismo nas relações de consumo

Universidade Zumbi dos Palmares lança Câmara de Mediação Racial nas Relações de Consumo em São Paulo - Crédito Dalton Assis / AC News

SÃO PAULO (SP) – A Universidade Zumbi dos Palmares, lançou nesta quarta-feira (13) em São Paulo, a Câmara de Mediação Racial nas Relações de Consumo. A iniciativa pretende atuar na resolução de casos de discriminação racial em ambientes de consumo, atendimento e prestação de serviços. O projeto integra o programa Racismo Zero e surge em meio a dados que evidenciam os impactos do racismo estrutural sobre o empreendedorismo negro, especialmente entre mulheres.

Durante o evento de lançamento, a instituição apresentou uma pesquisa inédita realizada pelo Centro de Estudos e Pesquisas Raciais (CEP Racial), que ouviu 90 empreendedoras negras da cidade de São Paulo entre os dias 5 e 10 de maio. O levantamento mostrou que 80% das entrevistadas afirmaram ter enfrentado situações de etnocentrismo em suas trajetórias profissionais, enquanto 78,9% relataram episódios de sexismo e 74,4% apontaram dificuldades financeiras como entraves para o crescimento dos negócios.

O estudo também identificou desafios relacionados ao acesso ao crédito, inclusão digital, barreiras tecnológicas e desigualdades estruturais nas relações de mercado, fatores que seguem limitando o avanço de mulheres negras no ambiente empresarial.

Segundo o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, a nova Câmara foi criada para enfrentar uma barreira histórica vivida por vítimas de discriminação racial ao buscar reparação.

“73% das vítimas não buscam seus direitos porque a forma como são tratadas nesses espaços acaba se constituindo em uma nova agressão. Com este trabalho, temos a capacidade de convocar essas pessoas para compreender seus direitos e fazê-los valer”, afirmou.

O reitor destacou ainda que o objetivo da iniciativa vai além da resolução jurídica tradicional.

“A Câmara de Mediação Racial nas Relações de Consumo nasce para que as pessoas possam sentar à mesa, colocar a sua dor e fazer com que o outro possa ouvi-las. Mais do que uma sentença, buscamos a solução de uma questão”, declarou.

A estrutura reúne práticas de mediação, justiça restaurativa e letramento racial e conta com apoio técnico da Faleck & Associados, especializada em métodos consensuais de resolução de conflitos. A iniciativa também tem apoio institucional do Procon-SP, FecomercioSP, Instituto para Desenvolvimento do Varejo, MOVER, Fenavist, APAS, ANAN e IERE.

Para Diego Faleck, o foco será buscar soluções mais humanizadas para os conflitos. “Nosso compromisso é entregar a humanização desses conflitos e resultados restaurativos da melhor maneira possível”, disse.

Já o diretor executivo do Procon-SP, Luiz Orsatti Filho, afirmou que a iniciativa preenche uma lacuna importante no enfrentamento ao racismo nas relações de consumo.

“O Procon Racial atua na prevenção, trabalhando com educação e letramento nas empresas. A Câmara fecha esse ciclo: quando o fato ocorre, ele é trabalhado em ambiente especializado para que, além da reparação, esse fato não se repita”, afirmou.

Representando o MOVER, Natália Paiva destacou que o racismo também gera perdas financeiras para empresas.

“Uma pesquisa recente revelou que 91% dos consumidores negros de perfumes importados já vivenciaram situações de racismo. Metade deixou de comprar ou nunca mais voltou ao estabelecimento. Isso evidencia que, devido ao racismo, as empresas estão deixando de obter receita”, declarou.

Criada como a primeira instituição de ensino superior do país voltada à promoção da igualdade racial e à formação de lideranças negras, a Universidade Zumbi dos Palmares afirma que a nova Câmara faz parte de uma estratégia mais ampla para conectar educação, justiça, mercado e inclusão social por meio do programa Racismo Zero.

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